O Paradoxo de Epicuro

Tempo de leitura: 16 minutos

Nas últimas semanas debatemos sobre o paradoxo de Epicuro, que aborda o problema do mal da seguinte maneira:

Paradoxo de Epicuro

O trilema de epicuro ou paradoxo de epicuro deixa muitos cristãos com dúvidas, já que o problema da coexistência de um Deus todo poderoso e bondoso com o mal ainda parece pouco compreendido entre os cristãos e não cristãos. Começamos analisando a primeira premissa:

O mal existe de fato?

A pergunta parece simples e você provavelmente respondeu que obviamente sim, porém isso já foi problematizado. Há alguns anos circula em redes sociais um possível diálogo atribuído a Einstein debatendo sobre a existência do mal com um professor. Não há referências que o autor brilhante desse pensamento tenha sido o físico, mas podemos analisá-lo.

A história conta que durante uma conferência com vários universitários, um professor ateu da Universidade de Berlim desafiou seus alunos propondo a premissa de Epicuro, objetivando provar que a fé é um mito:

“Se Deus criou tudo o que existe, e o mal existe, logo Deus criou o mal. E, como Deus criou o mal ele também é mal.”

O estudante ficou de pé e perguntou: professor, o frio existe?

Que pergunta é essa? Lógico que existe, ou por acaso você nunca sentiu frio?

O rapaz respondeu:

“De fato, senhor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, é na realidade a ausência de calor.

Um corpo pode transmitir ou receber calor de outro corpo. O corpo que está mais ‘quente’ transmite calor para o outro corpo que está “menos quente” (frio), pois possui menos calor. Mas o frio não existe. Nós criamos essa definição de ‘frio’ para descrever como nos sentimos quando estamos precisando de calor”.

E, continuando, o estudante fez outra pergunta:

A escuridão, professor, existe?

O professor respondeu:

Existe, óbvio, quando não enxergamos nada estamos ‘vendo’ a escuridão.

O estudante respondeu:

Novamente comete um erro, senhor, pois a escuridão também não existe. A escuridão na realidade é a ausência de luz. Pode-se estudar a velocidade da luz, a escuridão não!

Como saber quão escuro está um ambiente ou qualquer outro espaço determinado? Com base na ‘quantidade de luz’ presente nesse ambiente, não é assim? Escuridão é uma definição que o homem desenvolveu para descrever o que acontece quando não há luz presente.

Finalmente, o jovem perguntou ao professor:

Senhor, o mal realmente existe?

O professor respondeu: Claro que sim, lógico que existe, como disse desde o começo, vemos estupros, crimes e violência no mundo todo, e essas coisas são o mal.

E o estudante respondeu:

Assim como o frio e a escuridão, O mal é simplesmente a ausência do bem, é o mesmo dos casos anteriores, o mal é uma definição que o homem criou para descrever a ausência de Deus.

Deus não criou o mal. Deus é o bem.

O mal é a ausência de Deus em nossos corações.

É como acontece com o frio quando não há calor, ou a escuridão quando não há luz.

Agostinho também defendeu essa ideia do mal como uma corrupção do bem criado por Deus, assim como em escritores posteriores incluindo Tomás de Aquino. Assim, podemos problematizar logo a primeira afirmação de Epicuro, como o mal sendo fruto da ausência de Deus nos seres humanos.

Ao argumentar que o mal foi causado pelo mau uso do ser humano de seu livre-arbítrio nos  deparamos com duas perguntas.

A primeira é sobre o mal causado por desastres naturais e doenças ou sofrimentos acometidas a pessoas aparentemente boas. Sobre isso a Bíblia nos responde em Romanos 8:18-23:

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.
Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus.
Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, 
Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.
Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.
E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.”

Essas coisas também são resultado do pecado de Adão, pois toda criação foi afetada por ele conforme vimos no texto acima. Esse mundo terreno está corrompido pelo pecado e por isso não se pode haver um paraíso (sem o mal) aqui nessa vida. Sobre isso veremos detalhadamente mais adiante.

A segunda pergunta, baseada ainda em Epicuro, é se Deus poderia criar um livre arbítrio sem a existência do mal. Isso é logicamente impossível se tratando de seres livres. Deus é Todo Poderoso mas não contraria sua essência. É a mesma coisa que perguntar se Deus poderia criar uma pedra que nem ele poderia carregar. Isso é uma mau uso do conceito de onipotência afim de contrariar a lógica e confundir os cristãos. Podemos compreender melhor essa relação distinguindo o conceito de Ato e Potência proposto por Aristóteles.

Uma coisa em potência é uma coisa que pode se tornar outra através de influências, como uma semente plantada por alguém, que é uma árvore em potência. Uma coisa em ato é algo que já está realizado, como uma árvore, que é uma semente em ato. Tudo que é criado primeiro é uma potência que pode se tornar um ato. Quando Deus criou o livre arbítrio e a capacidade do homem fazer escolhas o mal foi criado potencialmente (podendo vir a existir em ato ou não), e o ser humano recebeu a influência do pecado, transformando o que era somente uma potência em um ato. Nesse momento todo o propósito da humanidade teria um novo rumo, necessitando de um outro ato, um ato ainda maior. Um ato de amor, de redenção. Também falaremos sobre isso mais adiante.

Deus sabe que o mal existe? Deus pode acabar com o mal?

A segunda e terceira premissa de Epicuro são verdadeiras e todos nós concordamos de Deus saber da existência do mal e o poder para acabar com ele, sendo Deus onisciente e onipotente.

Deus quer acabar com o mal?

A resposta é sim, Deus não só quer como vai acabar com o mal (Apocalipse 21:4). No entanto, o erro nessa pergunta é em afirmar que Deus não é amoroso pelo fato de não acabar com o mal em nossa vida terrena.  Sabemos que a ética suprema de Deus é a ética do amor. E a condição do amor é liberdade. Amor é um ato de alguém que está ao seu lado porque deseja estar ali, não por ter sido obrigado a estar ali. Se você tira a liberdade de alguém e a obriga a te amar esse amor não é verdadeiro. Quando as pessoas pedem para que Deus acabe com todo o mal desse mundo, na verdade estão pedindo para que ele tire a liberdade de todos os seres humanos, afinal, a água que nos mantém vivos também pode nos afogar. A gravidade que permite ficarmos grudados ao chão pode provocar uma queda e nos levar à morte. Deus deveria suspender todas as leis físicas em diversas situações, deveria parar gatilhos de armas, congelar água fervendo de alguém que se distraiu e se queimou, puxar a sua perna para trás quando fosse ser atropelado e tudo mais que o homem considera como mal. Para Deus seguir o que o ser humano exige nós teríamos que ser imortais, afinal, a morte é considerado um dos principais males desse mundo.

Helena Blavatsky afirma que o mal é sempre o que desagrada nossos sentidos humanos e mesmo que Deus agisse dessa maneira contrariando seu caráter, ainda sim o mal seria criado pelo homem ou para ele deixar totalmente de existir o bem também não poderia existir. O mal seria como a sombra, que necessita da luz para existir. Se o mal sumisse o bem também sumiria, pois não teríamos como defini-lo. Já que o bem existe, as pessoas vão sempre comparar esse bem e criar outra coisa para chamar de mal. Por exemplo, mesmo que não existisse mais mortes, nem acidentes e nem sofrimento o ser humano nesse mundo hipotético poderia definir como mal alguma outra coisa que não lhe agrada e manter o mesmo questionamento de porque Deus não acaba com o mal.

Logo, se o amor é a ética suprema, e liberdade é indispensável para o amor e o objetivo de Deus é que o amemos de todo o coração e o próximo como a nós mesmos, se ele violar nosso livre arbítrio, ele estaria violando um componente necessário para que o amor se estabeleça. Isso seria pedir para uma entidade diferente do caráter de Deus se manifestar e por mais maravilhoso que isso possa parecer, você estaria pedindo a negação do seu livre arbítrio, que é o poder de escolher amar a Deus de toda sua alma independente das circunstâncias. Quando temos o amor como ética suprema e o livre arbítrio para escolher esse amor, todas as outras contingências entram em ação.

Porque o mal existe?

Nesse momento já refutamos quase todas as premissas de Epicuro e os principais erros sobre a noção que os pagãos tinham do Deus cristão. Mas nós como cristãos podemos fortalecer nossa fé ao entender porque Deus permite o mal em certas ocasiões.

Na roda teológica nós discutimos sobre os milagres de Deus através do mal. Apesar de ser um efeito colateral do livre arbítrio do homem o mal ainda pode proporcionar um bem maior. Como o sal, algo áspero, penetrante, cortante, produz um alimento saboroso. Ingredientes aparentemente ruins, nas mãos de um cozinheiro talentoso, potencializam o sabor como um todo.  Assim, Deus pode promover o bem a partir do mal (Romanos 5:3). A Bíblia fala claramente de momentos em que a aflição teve propósitos terapêuticos (Miqueias 1:12).

1- O sofrimento pode ser um meio de Deus manifestar sua glória através de uma restauração ou um testemunho que impacte outras vidas através do milagre que ocorreu na sua. Também pode ser uma prova ao qual no final Deus dá em dobro, como no caso de Jó. Clique aqui para ler uma ilustração do Dr. Lair Ribeiro que explica muito bem sobre como nossa visão de mal é equivocada e pode mudar a partir das coisas que acontecem após aquele mal. Na bíblia encontramos vários exemplos disso. Além do já citado Jó, quando os irmãos de José o venderam, o que parecia um mal tornou-se um maravilhoso bem, pois lhe deram a oportunidade de chegar a ser governador do Egito.

2- Fenômenos naturais que também são considerados como mal por nós, também nos mostram os sinais de vinda do Senhor (Zc 14:4; Ez 38:19; Joel 2:1-1; Mateus 24:7). Esses textos falam sobre terremotos e tremores de Terra que haverão nos últimos dias. Agora observe o gráfico que mostra o número alarmante de terremotos que tem ocorrido no planeta a cada século. Somente no século 20 teve mais terremotos que os outros 19 juntos!

numero de terremotos aumenta

3- Um terceiro benefício do mal, segundo Irineu de Lyon, é a necessidade dele existir para cumprir o propósito das pessoas serem morais e escolherem pelo bem. Como consequência da entrada do pecado precisamos estar aptos para crescer em termos morais por intermédio de Cristo, o último Adão (1 Coríntios 15:45).

A paz e perfeição estão somente em Deus, e não na sua criação, pois sua criação foi contaminada pelo pecado como já vimos. Por isso nós cremos que a redenção é somente por meio do Filho de Deus, e esperamos o dia da volta de Cristo e a consumação dos séculos, quando Ele fará novas todas as coisas e não haverá mais dor (Apocalipse 21:4).

O mal é finito, mas o bem da glória que presenciaremos com o Senhor será eterna! 2 Corintios 4:16-18.

Logo, o mal pode cumprir um bem maior e precisamos entender isso e como essas coisas fazem parte do propósito de Deus para o ser humano. O mundo não é um lugar perfeito como um conto de fadas porque nosso objetivo aqui não é a diversão, estamos nesse mundo para nos darmos conta do potencial que Deus nos legou.

A Bíblia também nos fala que a provação produz fé. A pergunta incluída no paradoxo de Epicuro (não foi feita por ele, e sim por seus seguidores) é porque Deus nos testa se já sabe o resultado. Como a própria Bíblia diz, o objetivo da provação não é somente o resultado de passar ou não, e sim os frutos que ela produz, como paciência, perseverança, fé e tantos outros. Outro erro lógico nessa pergunta é afirmar que por Deus saber o resultado a provação não deveria existir. Na verdade Deus sabe o resultado justamente porque a provação existe. Se não houvesse provação como haveria resultado? É como você querer saber o resultado de uma partida de futebol que não aconteceu, não há lógica racional nisso.

O problema Emocional do Mal

Além do lado intelectual do mal nesse mundo também discutimos sobre o aspecto emocional que o sofrimento provoca. Assim como Epicuro tinha problemas de saúde os quais o levaram a indagar porque o Deus cristão permitiria o sofrimento, muitas pessoas não apreciam essa ideia por um fator puramente emocional, já que pela lógica mostramos que a coexistência do mal e Deus não são contraditórios, na verdade são uma antinomia, ideias que aparentemente são opostas tendo como objetivo mostrar uma suposta contradição que não existe de fato (falsa dicotomia), já que mostramos os motivos pelos quais o mal persiste mesmo com a existência de Deus.

Para a maioria das pessoas a existência do mal é de ordem emocional, e não intelectual. Tentam usar a razão para justificar, mas na verdade sua descrença nasce de uma rejeição e não de uma refutação. Nesse caso é bom evidenciar o sofrimento do único que não deveria sofrer, o Cristo. Jesus voluntariamente (lembra que a escolha é condição para o amor?) se submeteu a um sofrimento incompreensível por amor a todos nós. O amor envolve abertura para o risco de sofrimento, basta lembrar de um relacionamento desfeito que você teve. Jesus sim recebeu um sofrimento, vergonhoso, lento e imerecido. Conhecermos a Deus e o sacrifício de Cristo é um bem incomensurável, a qual o nosso sofrimento nem pode ser comparado. Juliana de Norwich aponta que poucos de nós conseguimos de fato entender essa verdade que Cristo sofreu mais dor que todos os homens, tanto a dor física quanto a dor do desprezo. Jesus, o próprio Deus, fez questão de sofrer assim como nós.

Embora o sofrimento pareça ser uma objeção a existência de Deus, na verdade vimos que Deus é a única solução para o problema do sofrimento. Sem Deus, estaríamos presos num mundo sem milagres, alívios de dor, sem curas, repleto de sofrimento sem sentido, sem redenção. Deus é a solução final para o problema do sofrimento, pois ele nos redime do mal e nos conduz a uma alegria eterna de comunhão com ele.

Está encerrado, portanto, o paradoxo de Epicuro. Nossa missão como cristãos é elucidar as pessoas sobre essas coisas e estarmos preparados para responder e pregar o evangelho. Claro que muitos insistirão em permanecer em sua rejeição, mas nossa parte será feita e o resto o Espírito Santo de Deus realizará.

Como já disse Agostinho:

“Ao entrar na oficina de um artesão, alguém desprovido de habilidade encontra muitas ferramentas cujo uso não compreende e que, se for um pouco estúpido, considerará desnecessárias. E caso essa pessoa se descuide e se machuque com uma dessas ferramentas, acreditará que tais objetos perigosos não deveriam existir. Mas o artesão, que conhece a finalidade de cada um deles, ri diante da estupidez daquela pessoa. Do mesmo modo, há pessoa limitadas pelo nosso próprio entendimento as quais ousam encontrar erros em muitas coisas nesse mundo por não conseguir entender o propósito de sua existência.” 

Edit: Sobre Isaías 45:7

1 Comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *